quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Da Reflexão dos Justos.





Foi trabalhar para todos,
E vede o que lhe acontece!
Daqueles a quem o servia,
Já nenhum mais o conhece!
Quando a desgraça é profunda,
Que amigo se compadece?

Tanta serra cavalgada,
Tanto palude vencido,
Tanta ronda perigosa em sertão desconhecido!
E agora, um simples alferes louco,
Sozinho e perdido.

Talvez chore na masmorra,
Que o chorar não é fraqueza!
Talvez se lembre dos sócios desta malograda empresa!
Por eles principalmente,
Suspirará de tristeza.

Sábios, ilustres, ardentes...
Quando tudo era esperança!
E agora...
Tão deslembrados, até de sua aliança.
Também a memória sofre,
E o heroísmo também cansa.

Não choram somente os fracos!
Um dia o mais destemido e forte,
Se pergunta,
Contemplando a humana sorte,
Se aqueles por quem morremos,
Merecerão a nossa morte.


Foi trabalhar para todos...
Mas, por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo,
nessa esquisita batalha.
Suas ações e seu nome,
por onde a glória se espalha?


Ambição gera injustiça.
Injustiça, covardia.
Dos heróis martirizados
nunca se esquece a agonia.
Por horror ao sofrimento,
ao valor se renuncia.

E a sombra de exemplos graves,
Nascem gerações opressas.
Quem se mata em sonho, esforço,
Mistérios, vigílias, pressas?
Quem confia nos amigos?
Quem acredita em promessas?

Que tempos medonhos chegam!
Depois de tão dura prova?!
Quem vai saber no futuro,
O que se aprova ou reprova?!
De que alma será feita,
Essa humanidade nova?

(Cecília Meireles)



2 comentários:

  1. Se é mesmo que falamos de almas!
    Como da primeira vez em que te li, me deslumbro.

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  2. Só espero não nos tornarmos meros números em dados estatísticos. Se é que isso ainda não aconteceu.
    Obrigada Joe! Tenho muito o que aprender ainda!

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