quarta-feira, 30 de maio de 2012

O amor acaba.



O amor acaba.

Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio;
 acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar;
 de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas;
 na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio;
 e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão;
 como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado;
 na insônia dos braços luminosos do relógio;
 e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos;
 e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão;
 às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres;
 mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia;
 no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar;
 na epifania da pretensão ridícula dos bigodes;
 nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas;
 quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar;
 na compulsão da simplicidade simplesmente;
 no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina;
 no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores;
 em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo;
 e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir;
 em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero;
 nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada;
 em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba;
 no inferno o amor não começa;
 na usura o amor se dissolve;
 em Brasília o amor pode virar pó;
 no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso;
 em São Paulo, dinheiro;
 uma carta que chegou depois, o amor acaba;
 uma carta que chegou antes, e o amor acaba;
 na descontrolada fantasia da libido;
 às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes;
e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros;
 e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York;
 no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor;
 e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados;
 e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo;
 na janela que se abre, na janela que se fecha;
 às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo;
 às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido;
mas pode acabar com doçura e esperança;
 uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor;
 na verdade;
 no álcool;
 de manhã, de tarde, de noite;
 na floração excessiva da primavera;
no abuso do verão;
 na dissonância do outono;
 no conforto do inverno;
 em todos os lugares o amor acaba;
 a qualquer hora o amor acaba;
 por qualquer motivo o amor acaba;
 para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

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